Oração para o início da Quaresma

Oração para o início da Quaresma Ele veio morar entre nós

https://youtu.be/Z9U18umqIZg

“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) 

Iniciamos hoje o tempo favorável, o tempo da salvação. A Quaresma se abre diante de nós como um vasto deserto, mas não entramos nele sozinhos. O evangelista São João nos entrega a chave para esta jornada: “E o Verbo se fez carne e veio morar entre nós”.

Pense na magnitude desta frase. O Deus que criou as estrelas, o Infinito que não cabe no universo, decidiu “armar a Sua tenda” na fragilidade da nossa carne. Ele não veio apenas nos visitar; Ele veio para morar. E morar significa intimidade, significa partilhar o teto, o pão, as dores e as alegrias.

Nesta Quaresma, o convite é para invertermos o olhar. Muitas vezes buscamos a Deus no extraordinário, mas Ele escolheu o ordinário da nossa humanidade. Se Ele veio morar entre nós, a nossa própria vida tornou-se o solo sagrado do encontro. O deserto quaresmal não é um lugar de abandono, mas o lugar onde Deus limpa a nossa casa para que a Sua glória brilhe com mais intensidade. É tempo de perguntar: como está a morada que oferecemos ao Senhor?

A Oração de Purificação e Entrega

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Senhor Jesus Cristo, Verbo Eterno que se fez carne. Nós nos prostramos diante de Vós neste início de Quaresma. Reconhecemos que, muitas vezes, embora Vós tenhais vindo morar entre nós, nós Vos deixamos do lado de fora. Deixamos a Vossa tenda no relento enquanto nos fechamos em nossos egoísmos, em nossas preocupações vãs e em nossos pecados.

Nesta quarta-feira de cinzas, pedimos: Entrai em nossa morada! Visitai cada cômodo do nosso coração nestes quarenta dias de caminhada.

  • Visitai a sala dos nossos pensamentos: Purificai o que pensamos sobre nós mesmos e sobre os outros. Retirai o entulho do julgamento, da inveja e da soberba. Que a Vossa Luz ilumine a nossa mente para que busquemos apenas o que é verdadeiro e santo.
  • Visitai os quartos da nossa intimidade: Lá onde guardamos as nossas mágoas mais profundas e as nossas feridas que ainda não cicatrizaram. Vós que Te fizestes carne, conheceis a dor da traição, do abandono e da ferida. Curai-nos, Senhor, para que a nossa casa seja um lugar de paz e não de amargura.
  • Visitai a mesa das nossas relações: Ensinai-nos a repartir o pão da caridade. Que o nosso jejum não seja apenas de alimento, mas de palavras ásperas, de críticas destrutivas e de indiferença. Que aprendamos a servir como Vós servistes.

Senhor, o deserto é longo e o sol da tentação é forte. Muitas vezes sentiremos saudades das “cebolas do Egito” — dos vícios antigos que nos davam uma falsa sensação de segurança. Quando a fome de sentido nos abater e a sede de esperança nos afligir, recordai-nos: Vós estais morando entre nós.

Vós não sois um Deus de longe, mas o Deus do Caminho. Que a oração, nestes quarenta dias, não seja um fardo, mas o respirar de quem conversa com o Amigo que mora na mesma casa. Que o nosso jejum seja a leveza de quem se desfaz do que é desnecessário para dar lugar ao que é Eterno. Que a nossa esmola seja o reconhecimento de que o irmão necessitado é a Vossa própria carne sofrendo em nosso meio.

Ao recebermos as cinzas, ou ao meditarmos sobre elas, lembramos que somos pó, sim, mas um pó que Deus ama. Um pó que o Verbo assumiu para transformar em glória. Não caminhamos para a morte, mas para a Ressurreição.

Ó Verbo Encarnado, cheia de graça e de verdade! Que a Vossa presença em nós, durante esta Quaresma, transforme o nosso deserto em jardim. Não permitais que sejamos cristãos apenas de aparência, com cinzas na testa mas o coração de pedra. Quebrantai a nossa dureza. Derretei o nosso gelo.

Apresentamos a Vós este tempo favorável. Apresentamos as nossas promessas, os nossos sacrifícios e a nossa vontade de mudar. Que ao final destes quarenta dias, quando a luz da Páscoa romper a escuridão do sepulcro, possamos olhar para dentro de nós e dizer com alegria: “Vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai”.

Ficai conosco, Senhor, pois o dia declina e a caminhada é longa. Mora em nós, para que possamos morar em Vós para sempre.

Amém.